Descrição
Apresentação
por Alder Teixeira
Quando decidiu intitular o livro que o leitor tem em mãos de “Mentiras sinceras – poemas da madrugada”, mais que apenas adotar um procedimento de praxe, uma exigência editorial, Weimar Gomes terá indicado possibilidades de leitura para o que sabemos ser a sua estreia como poeta. Ao contista, de extração clássica, em que se dão a ver os procedimentos recomendados por gente da estatura de Júlio Cortázar, já conhecíamos e admirávamos, pois que em pelo menos duas coletâneas brindara aos apreciadores da narrativa curta, no campo da ficção, com contos em que se observam, já nas primeiras frases, o que o escritor argentino chama de “obsessão do bicho”, esse elemento alucinante que faz o leitor “perder contato com a desbotada realidade que o rodeia, arrasá-lo numa submersão mais intensa e avassaladora”. Não à toa, Weimar Gomes trazia de volta ao palco da narrativa curta o que, sem risco, poderíamos identificar como uma ressignificação do realismo fantástico. Não é pouca coisa, se considerarmos que seus livros foram mais que uma tentativa de iniciante e se prestaram a dar corpo, rapidamente, a sua notável presença na literatura cearense contemporânea. Voltemos ao que nos interessa agora. Pois bem, ao escolher este título, “Mentiras sinceras – poemas da madrugada”, o poeta estreante enreda o leitor num paradoxo que já expõe sua disposição inventiva: explorar as dualidades do vasto mundo e desmistificar a ideia platônica da verdade absoluta, como, por sinal, deixa claro num dos mais belos poemas desta coletânea: “Na superfície, reluzente brilho, / Límpido verniz. / O reinado soberano de nossas verdades. / Entre elas, apertados espaços, / Onde encaixamos, sorrateiramente, / Todas as mentiras. / Uma para cada ocasião”, bem como revelar um tempo cronológico a que terá dedicado a escritura de seus poemas, a madrugada. Nesse sentido, mais que reeditar um tipo de poema que teve, por exemplo, em Cecília Meireles e Henriqueta Lisboa duas grandes representantes, o poeta dialoga com o que costuma pontuar a temática dos chamados “noturnos”, e que a primeira imortalizaria em versos notáveis: “Quem tem a coragem de perguntar, na noite imensa? / E que valem as árvores, as casas, / a chuva, o pequeno transeunte?”
No caso de Weimar, aliás, melhor se aplicaria falar da segunda, “Meu pensamento em febre / É uma lâmpada acesa / a incendiar a noite”, porque é assim, com esse mesmo nível de inquieta insônia, que o poeta destas mentiras sinceras alimenta a natureza intencionalmente errática de suas reflexões: “Dias de melancolia. / As nuvens são de chumbo. / Temporais desabam, / Pássaros se desmancham. / O mundo silenci, / E almas se apavoram. / Em noites de profunda tristeza, / Até os meus retratos choram”.
Ao lado desse aspecto a ser destacado a partir do título da coletânea, deve-se acrescentar o que se dá aos olhos como uma marca do que tomo a liberdade de definir como a poética weimariana: a motivação de romper com as fronteiras entre o que se convencionou entender como elemento diferenciador entre prosa e poesia, assunto de resto já muito esmiuçado nos estudos da teoria literária, mas ainda merecedor de considerações que não se limitem ao estabelecido em termos acadêmicos. Em tempo, devo observar o que o próprio Weimar já me adiantara ao me confiar esta apresentação: “São textos muito simples, claros, quase prosa”, dizia-me por telefone. Se não faltava com a sinceridade, num exercício de autocrítica que revela o estudioso atento, no entanto, o poeta carregava na humildade, que é mesmo uma de suas marcas pessoais como escritor, ainda que seja evidente, por esse ângulo, que produz uma poesia descarnada, isenta de pieguices e sentimentalismos que não raro sobressaem na obra de estreantes, nomeadamente aqueles que deixam momentaneamente a narrativa de ficção, a que estão mais habituados, como é seu caso, e ousam trilhar os lodosos terrenos da poesia tal qual a compreende o senso comum em relação à prosa, até mesmo quando temos em mente alguns teóricos ditos modernos, a exemplo de Johannes Pfeiffer, para citarmos um clássico: “A poesia não é distração, mas concentração, não substituto da vida, mas iluminação do ser, não claridade do entendimento, mas verdade do sentimento”. […]
Os versos, embora curtos, como é mesmo uma característica dominante no livro, têm a medida certa, a cadência notável em se tratando de forma livre, não rimada, e, sobretudo possui o ritmo e as oscilações sonoras que emprestam à leitura do texto a musicalidade que nasce do arranjo das palavras, não dos mecanismos tradicionais da versificação. Tudo, o que mais importa, a serviço do belo artístico, sem perder de vista a profundidade da ideia, o sentido da mensagem, a delicadeza da exaltação, a cervantina flecha a cortar o espaço do tempo […..}
Ao conciliar a liberdade de expressão, o coloquialismo da linguagem, a espontaneidade da emoção, com o que se convencionou identificar como a rigidez da forma, Weimar Gomes faz do seu livro de estreia, como poeta, um testemunho em favor da experiência estética como libertação.
Alder Teixeira
Alder Teixeira é mestre em Letras e doutor em Artes pela UFMG. Escreveu, entre outros, “Estratégias Narrativas na Cinematografia de Bergman”, “Estética, da Arte e Outras Questões”, “Componentes Dramáticos da Poética de Carlos Drummond de Andrade”




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